Um intercâmbio pode durar um ano. Mas algumas relações começam durante esse período e continuam fazendo parte da vida décadas depois.

Foi assim com Roberto Fragale, que participou de um intercâmbio do AFS entre 1985 e 1986, em Grass Valley, uma pequena cidade no norte da Califórnia. A oportunidade surgiu por indicação do marido de uma prima, que o incentivou a buscar uma experiência intercultural.

Roberto se candidatou ao programa e precisou passar por um rigoroso processo seletivo. Depois de duas tentativas, conseguiu ser aprovado na terceira e última oportunidade.

Naquele momento, ele já havia ingressado na universidade e cursado o primeiro semestre. Mesmo assim, embarcou para os Estados Unidos e acabou refazendo o último ano do ensino médio, desta vez com uma liberdade que lhe permitiu escolher disciplinas como fotografia, filosofia e oratória.

Um choque de realidades

A mudança foi radical. Roberto saiu de uma grande cidade e foi viver em uma pequena comunidade do norte da Califórnia, com pouco mais de dez mil habitantes. A rotina também era completamente diferente: sua família hospedeira morava a cerca de 30 quilômetros da cidade, que não tinha sequer transporte público.

Dentro de casa, encontrou outra diferença importante. Acostumado a uma família mais tradicional, passou a conviver com uma família hospedeira mais liberal, envolvida com questões de gênero e formada por quakers, com profundas convicções pacifistas.

O início não foi simples.

“Essa combinação entre acolhimento e limitada autonomia de deslocamento proporcionou um choque inicial de adaptação, mas se revelou ao longo do tempo profundamente enriquecedora, pois me aproximou demais de minha família hospedeira.”

Foi nessa convivência que Roberto desenvolveu uma relação que ultrapassaria os limites do intercâmbio.

“Criamos uma cumplicidade que se aprofundou ao longo da estadia e me fez perceber que tudo é possível quando se tem o desejo e disposição para encontrar soluções.”

Família hospedeira de Roberto durante o Dia de Ação de Graças

Uma família para a vida

Quando perguntado sobre uma história específica do intercâmbio que costuma contar até hoje, Roberto não escolheu um episódio. Para ele, a própria relação com a família hospedeira é a grande história.

“Entre nós, havia uma genuína curiosidade, um compartilhamento incessante, uma busca permanente por soluções que contemplassem os desejos e as necessidades de todos. Minha família hospedeira tornou-se um prolongamento permanente de minha família.”

Passaram-se quatro décadas desde aquele ano. Roberto acompanhou as transformações da família, reencontrou seu irmão hospedeiro em diferentes cidades e continuou presente na vida de seus filhos. Quando seus pais hospedeiros faleceram, participou, ainda que remotamente, das cerimônias de despedida. E a relação com seu irmão hospedeiro continua até hoje.

“Passaram-se 40 anos e ainda converso com meu irmão hospedeiro sobre nossos dilemas pessoais e profissionais.”

Em um dos reencontros mais recentes, recebeu algo que guardava uma parte daquela história: as cartas que havia enviado nos primeiros anos após voltar ao Brasil.

“As cartas que lhe mandei nos primeiros anos após meu retorno contam muito sobre minha reinserção no Brasil, na cidade grande, falam de novas aventuras e expressam uma saudade enorme de nossa convivência.”

As portas abertas para o mundo

O impacto do intercâmbio também apareceu nos caminhos que Roberto tomou depois de voltar ao Brasil.

Retomou a faculdade, casou-se com outra intercambista do AFS, que havia viajado para o Canadá, e anos depois fez seu doutorado no exterior. Desde então, sua trajetória acadêmica o levou a diferentes países e continentes.

O inglês aprendido durante o intercâmbio tornou-se uma ferramenta fundamental em sua vida profissional e hoje é sua língua de trabalho no Tribunal de Apelações das Nações Unidas.

Para Roberto, essa trajetória internacional tem uma origem clara.

“Compreender as diferenças culturais, estar aberto ao desconhecido, permitir-se descobrir diferentes cantos do mundo, tudo isso tem seu ponto de partida na experiência do AFS, suas alegrias e dificuldades.”

A experiência também mudou a forma como ele e sua esposa enxergam a própria casa. Depois do intercâmbio, os dois passaram a receber inúmeras pessoas, enquanto suas filhas também tiveram experiências internacionais pelo AFS.

“O AFS me proporcionou um desejo de ajudar e me fez abrir as portas de casa para o mundo.”

Assim, uma experiência que começou ainda na juventude acabou influenciando também as gerações seguintes de sua família.

O intercâmbio que continua acontecendo

Quarenta anos depois, os aprendizados daquele período continuam presentes.

Roberto mantém contato com seu irmão hospedeiro, acompanha sua família e ainda guarda no escritório os registros de seu antigo professor de fotografia. O próprio idioma aprendido durante o intercâmbio se tornou parte permanente de sua vida profissional. Mas, para ele, o aprendizado intercultural vai muito além do inglês.

“Os aprendizados de minha experiência com o AFS não cessam de se renovar quando me vejo confrontado com situações interculturais, com a necessidade de expressar empatia diante do desconhecido e de me conectar com mundos estranhos à minha rotina.”

É justamente essa capacidade de se abrir para o diferente que Roberto considera um dos maiores legados do AFS.

“É difícil resumir tantas coisas em uma palavra, mas penso que a experiência do AFS é um imenso exercício de empatia e alteridade. É uma ponte para o diferente marcada pelo desejo genuíno de conhecer e aprender.”

E continua:

“É uma maneira de suprimir rótulos, vieses e preconceitos. É um intenso permitir-se diante da dúvida e do desconhecido. É um exercício de desconstrução acoplado com a reconstrução de múltiplos pertencimentos.”

Para ele, abrir-se ao mundo não significa abandonar suas próprias raízes.

“Graças ao AFS descobri-me cidadão do mundo sem me esquecer das demandas locais.”

70 anos de uma família que continua crescendo

Em 2026, enquanto o AFS Brasil celebra 70 anos de história, Roberto olha para essa trajetória de uma perspectiva que mistura participante, voluntário e parte de uma comunidade que também se tornou parte de sua própria família.

Ao longo dos anos, contribuiu para a história do AFS Brasil como diretor nacional e também se envolveu com o AFS na França, participando do comitê local de Montpellier e da diretoria nacional francesa. Mas talvez a melhor maneira de entender o significado do AFS em sua vida esteja em uma frase que Roberto utilizou ao participar das comemorações dos 60 anos da organização, em um depoimento ao Museu da Pessoa:

“O AFS sempre esteve lá em casa.”

E não era apenas uma metáfora. Ao longo dos anos, sua casa recebeu intercambistas, antigos participantes, amigos de participantes e pessoas que, de alguma maneira, chegaram à sua família por meio do AFS.

Uma família que, para Roberto, continua crescendo.

“De fato, saber que essa família só fez crescer ao longo desses 70 anos e que ainda existe um enorme espaço possível de atuação para que essa família continue a incorporar mais pessoas e siga contribuindo para um mundo melhor é algo que me faz acreditar que não só valeu a pena, como ainda vale a pena investir nessa organização que não cansa de se reinventar para que um mundo melhor seja possível.”

Ao olhar para os 70 anos do AFS Brasil, sua palavra é de agradecimento.

“A palavra que melhor resume essa experiência e essa celebração é, sem dúvida, uma palavra de agradecimento. Obrigado, AFS, por tudo que seus voluntários tornaram possível ao longo dessas sete décadas de existência.”

Convenção Nacional do AFS em 1993