Neste ano, o AFS Brasil celebra 70 anos de história. Para marcar essa trajetória, reunimos relatos de pessoas que fizeram parte dessa jornada e que carregam consigo experiências construídas por meio do intercâmbio e do encontro entre culturas.
Para abrir essa série, conversamos com Lucila, Alumni que embarcou para os Estados Unidos em 1960. Em nossa conversa, ela compartilhou memórias da sua experiência no Texas, as diferenças culturais que encontrou ao chegar e os aprendizados que a acompanham até hoje.
A história de Lucila com o AFS começou quando uma estudante recém-chegada dos Estados Unidos visitou o Colégio Santa Rosa de Lima, onde ela estudava, para compartilhar sua experiência de intercâmbio. Inspirada pelo relato, Lucila decidiu buscar mais informações sobre o programa e participar do processo seletivo.
“Fiquei interessada e comecei a procurar mais informações, fiz inúmeros testes e acabei sendo aceita.”
Pouco tempo depois, ela embarcou para os Estados Unidos. Após passar alguns dias em Nova York com outros participantes do programa, seguiu para Amarillo, no Texas, onde viveria pelos 11 meses seguintes com sua família hospedeira.
Em Amarillo, Lucila foi recebida por uma família hospedeira formada por um casal e três filhos. O período de adaptação foi também um período de descobertas. Além de conhecer uma nova cultura, ela passou a observar diferenças na rotina familiar, na escola e até na forma como os jovens se relacionavam com o trabalho e a independência.

“Meu primeiro mês foi de férias. A minha família era formada pelo casal, uma filha da minha idade e dois meninos de 14 e 9 anos. A casa era muito confortável e a família acolhedora. A minha ‘irmã’ americana estava na Alemanha, como bolsista do AFS, e só voltou para casa na véspera do início das aulas.
Nós íamos para a escola cedo e voltávamos para casa às 15h. Aqui nosso horário era até às 12h. A minha família americana era privilegiada e tinha uma empregada doméstica, Louella, que ajudava nos trabalhos da casa. Os meninos, nas férias, trabalhavam. O menor fazia e vendia cookies no escritório onde o pai trabalhava. O mais velho trabalhava no supermercado para juntar dinheiro e comprar um carro para ele. Isso dificilmente aconteceria no Brasil.”

As diferenças também apareciam nas condições de vida que encontrou durante o intercâmbio. Ao comparar sua realidade no Brasil com a da família hospedeira, Lucila percebeu novas perspectivas sobre o cotidiano e as oportunidades que aquela experiência proporcionava.
“No Brasil, a minha família não tinha muito dinheiro. Eu ganhei bolsa integral e ainda recebia uma mesada de 14 dólares. Nós almoçávamos na Amarillo High School e jantávamos em casa. A rotina diária era mais ou menos assim.”
Entre as muitas lembranças que guarda do intercâmbio, algumas das mais marcantes surgiram nos momentos mais simples do cotidiano. Uma delas aconteceu logo no primeiro café da manhã com a família hospedeira.
“Aqui, o meu normal era café com leite, pão quentinho com manteiga. Lá, um da família fazia ovos mexidos, torradas e bacon. O leite era gelado. Naquela época, bacon não era normal por aqui e eu não conhecia. Eu não gosto de gordura e quando vi aquilo fiquei em pânico. Não sabia como iria conseguir tirar toda aquela gordura dali… acabei comendo assim mesmo e adorei.”
Além da convivência com sua família hospedeira, o intercâmbio proporcionou a Lucila a oportunidade de conhecer jovens de diferentes partes do mundo. Essas conexões interculturais se tornaram uma das marcas mais especiais da sua experiência.
“Na minha época, também convivemos com muitos outros bolsistas estrangeiros. Só na minha cidade, éramos 4, uma holandesa, uma belga e um italiano. Mas tivemos várias reuniões com outros, de cidades vizinhas.”
Ao final do programa, ela participou de uma viagem que reuniu estudantes de diversas nacionalidades em uma experiência que permanece viva em sua memória até hoje.
“E, no final, fizemos uma viagem de um mês, num ônibus alugado, cheio de gente de todo o mundo, parando e passando 2 ou 3 dias em diversas cidades, até chegarmos ao campus da Universidade de Massachusetts, onde houve um enorme encontro de todos os bolsistas daquele ano. Não sei se isso ainda é assim, mas foi uma beleza! Realmente inesquecível! Nunca teria uma oportunidade dessas, não fosse pelo AFS.” Relembrou Lucila.

Mais de seis décadas depois, ela ainda guarda com carinho as lembranças daquela experiência. Ao ser questionada sobre que conselho daria à jovem Lucila prestes a embarcar rumo aos Estados Unidos respondeu sem dúvidas:
“Vá em frente e aproveite sua chance. Não vai ser fácil conseguir outra!!! E não foi mesmo…”
Os aprendizados ficam para a vida toda. Ao refletir sobre o que levou daquela experiência para sua vida, a resposta resume não apenas sua trajetória, mas também a importância do encontro entre culturas promovido pelo AFS ao longo de seus 70 anos de história.
“O de conviver e interagir com as mais diversas pessoas. E gostar muito disso!!!”


