Um intercâmbio costuma durar alguns meses. Algumas conexões, porém, duram a vida inteira. Foi exatamente isso que aconteceu com um grupo de participantes do AFS que embarcou para o intercâmbio em 1974 e 1975.
Cinco décadas depois, amizades construídas na adolescência continuam atravessando fronteiras, reunindo pessoas de diferentes países e dando origem a uma comunidade que mantém vivo o mesmo espírito que nasceu durante o intercâmbio. Desde 2014, esse grupo promove encontros anuais ao redor do mundo e, em 2026, pela primeira vez, se reunirá no Brasil, em um encontro na Amazônia.
Entre essas histórias está a de Eunice Martins, participante do Winter Program do AFS nos Estados Unidos em 1974/1975. Ao recordar sua trajetória, ela mostra que o maior legado de um intercâmbio nem sempre está na viagem em si, mas nas conexões que permanecem muito depois da volta para casa.

A história dos reencontros começou muitos anos depois do intercâmbio. Com a popularização da internet, antigos participantes voltaram a se encontrar por meio do site do AFS Brasil. Um e-mail levou a outro, até que um pequeno grupo de amigos decidiu marcar um jantar em Curitiba, em 2006. O que parecia apenas uma oportunidade de rever velhos conhecidos acabou dando início a um movimento muito maior.
Foi desse reencontro que nasceu um sonho que mudaria a história daquela geração de AFSers. Eunice conta que no jantar um dos membros dessa comunidade Mario Chiavegatti lançou uma ideia que parecia ousada: reunir novamente os participantes de 1974/1975 espalhados pelo mundo.
“Durante um almoço, Mario Chiavegatti recitou uma frase, em inglês, para fazer graça: ‘I have a dream… to bring together people from all over the world’. Alcides Farias topou o desafio na hora.”
Com um antigo livreto em mãos, contendo os nomes e endereços dos participantes de 1974/1975, começou um verdadeiro trabalho de reconstrução dessa rede de amizades. Aos poucos, antigos colegas foram sendo encontrados na internet, novas conexões surgiram e uma comunidade internacional voltou a ganhar vida.

Hoje, esse grupo reúne participantes de diferentes países, que mantêm contato ao longo do ano e se reencontram anualmente em diferentes partes do mundo, sempre organizados pelos próprios integrantes.
Segundo Eunice, cada encontro segue um ritual que já virou tradição.
“O evento começa sempre com um welcome dinner, inclui passeios, conversas, brincadeiras, show de talentos e, quase sempre, discursos emocionados. Também fazemos rodas de conversa em que cada um atualiza os amigos sobre sua vida e seus projetos para o futuro. O que fazemos, em resumo, nesses encontros, é uma grande celebração à vida.“
Em 2026, essa história ganhará um capítulo especial. Pela primeira vez, o AFS 74/75 Annual Reunion, o encontro internacional da comunidade, acontecerá no Brasil, reunindo participantes de diversos países na Amazônia. O reencontro acontece justamente no mesmo ano em que o AFS Brasil celebra seus 70 anos, conectando a história da organização às histórias de pessoas que continuam vivendo, na prática, o AFS spirit mais de cinquenta anos depois de seus intercâmbios.
A escolha do Brasil como sede do reencontro de 2026 representa um momento simbólico para a comunidade. Depois de tantos encontros realizados em diferentes partes do mundo, será a primeira vez que os participantes voltarão a se reunir no país onde esse movimento de reencontros começou décadas atrás.
Para Eunice, assumir a organização dessa edição foi também uma forma de retribuir tudo o que o AFS proporcionou ao longo dessas décadas.
“No encontro de Vancouver, em 2025, ninguém se candidatou para organizar a edição seguinte. Eu temi que essa corrente se quebrasse e, certamente em um momento de insensatez, me ofereci para organizar o encontro na Amazônia brasileira.”
Então, o projeto ganhou forma. Para os participantes brasileiros, o encontro será uma oportunidade de apresentar um pouco da cultura, da hospitalidade e das riquezas naturais do país aos amigos que chegam de diferentes partes do mundo.
“Somos em doze brasileiros a participar do evento na Amazônia e, para todos nós, é uma grande alegria mostrar um pedacinho do Brasil. Pretendemos fazer isso com bastante eficiência e alegria, para que nossos amigos estrangeiros levem para casa uma impressão positiva desta terra maravilhosa.”
Mais do que celebrar antigas lembranças, essa comunidade mostra que o intercâmbio não termina no dia em que o participante volta para casa. As amizades continuam, novas histórias são construídas e o espírito AFS permanece vivo, atravessando diferentes fases da vida.

Ao refletir sobre mais de cinco décadas dessa trajetória coletiva, Eunice resume o legado que essa experiência deixou para sua geração:
“Depois de mais de meio século, a comunidade de AFSers 74/75 revela que um intercâmbio não termina quando o participante volta para casa. Ele continua atuando nas escolhas, nas trajetórias, nas vidas de pessoas que aprenderam a reconhecer, umas nas outras, aquilo que é comum à condição humana. Fronteiras e décadas podem modificar rostos e corpos, mas raramente conseguem modificar sonhos e esperanças de pessoas que, um dia, juntas, descobriram o mundo.”
Em um ano tão especial para o AFS Brasil, que celebra sete décadas de história, o reencontro na Amazônia representa muito mais do que uma viagem. Ele simboliza o legado de milhares de intercâmbios que continuam conectando pessoas, culturas e gerações ao redor do mundo.
Para Eunice, essa trajetória pode ser resumida em poucas palavras:
“Representa a vitória da cordialidade, da esperança e, principalmente, da nossa insistente ânsia por comemorar a vida. Quase chegando aos setenta anos, em maioria somos ativos, produtivos, em demonstração de que ser velho, para nós, é apenas uma nova fase em que também sonhamos e tentamos viver com a mesma alegria e entusiasmo dos dezessete anos.”
“É o AFS spirit que nunca deixamos morrer em nós.”


