Para quem cresceu em Pacajus, no interior do Ceará, e fazia seus estudos em Fortaleza, conhecer o mundo era um desejo que ele carregava desde cedo. Vandré Brilhante, o 12º de 13 filhos, sempre teve curiosidade pelo que existia além das fronteiras que conhecia. Foi essa vontade de descobrir o novo que o levou ao AFS.
Em 1987, Vandré embarcou para os Estados Unidos para viver um intercâmbio anual com subsídio financeiro. Seu destino foi Walton, no estado de Nova York, onde passou a conviver com uma nova família, comunidade e cultura completamente diferentes das que estava acostumado no Brasil. A oportunidade representava mais do que conhecer outro país. Para ele, era uma forma de colocar o futuro em uma perspectiva diferente, abrindo novas possibilidades pessoais e profissionais.
“Sempre quis conhecer o mundo, outros países, e essa curiosidade me levou ao AFS. O AFS me trouxe a oportunidade de fazer o intercâmbio anual com subsídio financeiro.”
Aprender a viver o diferente
O intercâmbio trouxe descobertas que iam muito além das diferenças culturais. Entre o frio de Nova York e a convivência com uma comunidade até então desconhecida, Vandré encontrou pessoas que, mesmo sem conhecê-lo anteriormente, passaram a fazer parte de sua formação.
“Além do clima frio, a dedicação e o amor que recebi de pessoas voluntárias que nunca tinha visto antes.”
A experiência também exigiu amadurecimento. Em 1987, não havia internet e uma ligação telefônica internacional era cara. A convivência com a família hospedeira e com a comunidade local não podia ser substituída por mensagens ou chamadas instantâneas. Era preciso estar presente. Foi justamente nesse cotidiano que Vandré encontrou um dos grandes aprendizados que levaria para a vida.
“Aprendi que viver o momento, mesmo com a inquietação da adolescência, foi minha maior lição.”
A experiência também transformou sua maneira de se relacionar com as diferenças.
“Aprendi a escutar, admirar e respeitar o diferente e, acima de tudo, a valorizar a minha cultura brasileira.”
Para Vandré, esse conjunto de aprendizados ajudou a formar uma visão de mundo mais ampla: compreender o mundo como um conjunto, reconhecer a importância das comunidades e enxergar a sociedade como parte fundamental da construção do futuro.

O intercâmbio que virou caminho profissional
Quando voltou ao Brasil, Vandré já não era exatamente o mesmo jovem que havia embarcado para os Estados Unidos. Seus planos também mudaram. Ele desejava ser médico, mas acabou se tornando economista e, posteriormente, empreendedor social. E, segundo ele, o intercâmbio teve papel fundamental nessa trajetória.
“Mudei muito. Desejava ser médico, tornei-me economista e a vida me tornou um empreendedor social.”
A conexão com o AFS não terminou com o retorno ao Brasil. Pelo contrário: ela se aprofundou por meio do voluntariado.
Vandré passou por diferentes funções na organização, incluindo a presidência de comitê, o Conselho, a Presidência Nacional e a Diretoria de Finanças. Também participou de iniciativas internacionais, integrou comissões com pessoas de diferentes países e chegou a atuar como Trustee Internacional, contribuindo para discussões sobre estratégias da organização mundial. Ao longo dessas experiências, visitou mais de 20 países em missões do AFS.
Para ele, o voluntariado foi muito mais do que uma forma de continuar próximo da organização que havia proporcionado seu intercâmbio.
“Sempre considerei a atuação voluntária como uma formação para a vida e um trabalho sério e responsável.”
Essa trajetória acabou se conectando a outro capítulo importante de sua vida: a criação do CIEDS, organização social que atua na promoção de saúde, renda, educação, bem-estar e confiança no futuro para pessoas que mais precisam.
Vandré reconhece no intercâmbio e na experiência acumulada no AFS uma influência direta nessa escolha.
“Essa experiência me fez abrir para o mundo, sendo um fator fundamental para a minha formação de empreendedor social. Trouxe-me a habilidade de conviver com o diferente e buscar solução para problemas complexos.”

Algumas conexões nunca terminam
Mais de três décadas depois do intercâmbio, algumas das relações construídas naquele período continuam presentes. Vandré mantém uma relação próxima com sua família hospedeira nos Estados Unidos, que continua fazendo parte de sua vida.
“Tenho minha família hospedeira próxima até hoje. Visito frequentemente. Sou parte da família deles e eles parte da minha vida.”
As amizades também atravessaram o tempo. Segundo ele, cerca de 90% do grupo de jovens que viajou pelo Comitê Ceará naquela época continuam sendo grandes amigos, alguns deles, seus melhores amigos.
A ligação com o AFS também permanece. Vandré continua atuando como voluntário e, nos últimos anos, voltou a contribuir diretamente com a organização. Em uma dessas iniciativas, chegou a financiar a participação de uma intercambista com baixa condição financeira em um programa anual no Japão.
Uma escola que era parte da comunidade
Quando perguntado sobre uma única história que contaria a alguém que nunca viveu um intercâmbio, Vandré não escolheu uma viagem, uma festa ou um episódio familiar.
Escolheu a escola.
Para ele, a experiência escolar em Walton foi uma das grandes descobertas do intercâmbio. A escola não era apenas um lugar de aprendizado acadêmico, mas um dos principais pontos de integração da comunidade.
“A escola era a peça principal da minha experiência e formação intercultural pessoal e profissional.”
Alunos, profissionais e famílias participavam de uma comunidade que se encontrava também por meio do esporte, da cultura e das atividades educacionais. A escola oferecia, segundo sua lembrança, educação de qualidade, tecnologia, desenvolvimento cidadão, esporte e cultura.
Mais do que uma diferença entre dois sistemas educacionais, aquela experiência mostrou a Vandré como uma instituição pode ocupar um papel central na construção de uma comunidade.
Uma experiência que continua abrindo fronteiras
Em 2026, enquanto o AFS Brasil celebra 70 anos de história, Vandré olha para a organização a partir de uma perspectiva bastante particular: ele foi participante, voluntário, líder nacional e internacional e, hoje, continua contribuindo para que outros jovens tenham acesso às mesmas oportunidades que um dia transformaram sua própria trajetória.
“Sinto o prazer e a alegria de fazer parte dessa rede mundial que mudou e moldou a vida de milhares de pessoas.”
Essa sensação também renova sua vontade de continuar contribuindo para o futuro do AFS e para que novos jovens possam viver experiências interculturais, agora diante de um mundo diferente daquele que ele encontrou em 1987. Para Vandré, justamente em um cenário marcado por divisões, a aproximação entre culturas se torna ainda mais necessária.
“Nesse sentido, diante do mundo dividido que vivemos hoje, a experiência AFS, a aproximação e proximidade com outras culturas, o respeito à diversidade e a construção de redes familiares e pessoais duradouras se fazem imensamente importantes.”


